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Os bons exemplos do presidente português

A imagem do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo, fazendo compras num supermercado, no último fim de semana, chamou a atenção do mundo. 

Rebelo costuma ir sozinho às compras, devidamente protegido, com máscaras e luvas, seguindo as recomendações da OMS. Aguarda na fila como um simples mortal.

O presidente português é imbatível nos índices de popularidade, mas não faz exibicionismos para atrair partidários. É um popstar sem ego inflamado. 

Ele também é respeitado pelo poder do diálogo. Quando decretou as medidas restritivas em Portugal, no dia 18 de março, ressaltou em discurso que aquela era “uma decisão excepcional num tempo excepcional”. Conseguiu a união dos partidos e do povo, pois segundo ele a “tarefa é de todos e não de cada um abandonado à sua sorte”.

Rebelo respeita a ciência e a saúde do povo. Nunca fez propaganda enganosa de falsos remédios milagrosos. 

É um presidente preocupado com as questões ambientais e climáticas. No ano passado fez um discurso na abertura da Assembleia da ONU que emocionou o mundo. 

Portugal já está flexibilizando o isolamento social e recebeu a atenção da impressa internacional por ter dado “resposta rápida” ao coronavírus. As taxas de infecção e mortalidade no país são as menores da Europa.

Um presidente virtuoso e exemplar.

A história de um ex-brasileiro, Prêmio Nobel

O cientista Peter Medawar disse que os vírus são “fragmentos de ácido nucleico rodeado de más notícias por todos os lados”.

A cada dia que passa percebemos a dimensão brutal da pandemia e as más notícias que se espalham.

Aqui no Brasil o pesadelo aumenta muito com esse ser inominável na presidência. Mas não é sobre ele que vou falar. Ao contrário, é sobre um grande homem (foto), autor da frase acima. 

Peter Medawar nasceu em Petrópolis, RJ, Brasil, em 1915 e na adolescência foi estudar no Reino Unido. 

Lá ganhou bolsa de pesquisa do governo britânico e avançou nos estudos, enquanto a sua família continuou no Brasil. 

Convocado mais tarde para prestar o serviço militar obrigatório aqui no Brasil, ele tentou de todo jeito a dispensa, para continuar os seus estudos promissores lá fora. 

Para tanto, houve um intenso movimento do seu pai e de amigos, que levaram o pedido de dispensa até o então ministro de Guerra Eurico Dutra, que poderia concedê-la. 

Dutra foi inflexível e disse que, sem prestar o serviço militar, o jovem cientista perderia a nacionalidade brasileira, o que realmente aconteceu. 

O tempo passou… 

Anos depois Eurico Dutra tornou-se presidente do Brasil (1946-51) e entrou para o folclore político como um dos mais limitados (de inteligência) que o Brasil já teve (hoje a medalha de prata ou de bronze seria garantida). 

Já o “Sir” Peter Medawar ganhou a nacionalidade britânica, continuou os estudos na Inglaterra, e foi vencedor do Prêmio Nobel de Medicina em 1960.

Medawar poderia ter honrado o nome do Brasil, que até hoje não tem um Nobel. Mas infelizmente, como se vê, o burocratismo e a toupeirice dos nossos governantes é um problema histórico. 

O Brasil mostrou-se indigno de Peter Medawar.

Thoureau e as lições de isolamento

“Só amanhece o dia para o qual estamos despertos”, afirmou Henry Thoureau (1817/62), filósofo e poeta americano que nos convidava a viver de um modo mais inteligente e menos angustiante. 

Thoureau viveu dois anos isolado numa pequena cabana perto do lago selvagem chamado Walden (foto) e escreveu o livro “Walden”, uma espécie de diário, publicado em 1854.

O livro foi concluído em 1854 e à época já criticava os rumos da sociedade industrial, o desperdício do consumismo desenfreado e propõe a volta do homem ao respeito às fontes da vida e pela natureza. 

O livro fez sucesso na minha geração e inspirou ecologistas, alternativos, e todos aqueles que acreditam ser possível uma vida simples, saudável e sustentável. É bastante utópico, mas ainda tenho o meu, já velhinho, na estante. 

A obra é um ensaio sobre a capacidade de o ser humano viver sozinho e a não acumular bens além do necessário.

Dizia Thoreau que não devemos nos perturbar com a aquisição de coisas novas e defendia somente o essencial para viver. “As coisas não mudam, nós mudamos. Se somos insaciáveis é porque não enxergamos bem as nossas reais necessidades”. 

Thoureau desaconselhava que as pessoas acumulassem bens pensando no futuro. “Melhore o momento presente. Estamos vivos agora”, dizia. 

“Sou grato pelo que sou e pelo que tenho”, dizia ele, “e minha gratidão é permanente. Surpreende que alguém possa estar tão contente sem uma razão definida – apenas o fato de existir. Respirar é suave e delicioso. E me alegro pensando na minha riqueza indefinida. Nenhuma crise pode colocá-la em perigo. Eu a tenho e, no entanto, não a possuo”. 

Walden nos deixou o legado de que uma vida mais simples é viável, saudável e sustentável. É importante tanto do ponto de vista econômico, quanto do aspecto psicológico.

O isolamento tem nos obrigado a reconhecer melhor alguns dos valores pregados por Thoureau, que têm muito dos preceitos da filosofia estóica, como a vida simples, a importância de se aproveitar o presente e a necessidade de olharmos para nós mesmos. 

Thoureau nos deixou vários legados e outros trabalhos sobre Desobediência Civil, inspirando pacifistas como Gandhi e Martin Luther King.

Mas foi em Walden que ele nos deixou o legado de que a solidão pode nos levar ao encontro conosco mesmos.

Ao viver em completa solidão, Thoureau aprendeu muito sobre si mesmo e sobre os homens. Voltou para a vida em sociedade muito enriquecido. Mais que tudo, aprendeu a ver o que havia de melhor nele mesmo.

Influencers digitais em defesa da democracia

Não conheço bem a Anitta e nem o Felipe Neto, mas sei que são pessoas que fazem comunicação direta com milhões e milhões de jovens de todas as classes sociais. 

Ambos estão se posicionando em relação a política e expandindo o debate em defesa da democracia.

A iniciativa é importante, seja pelo grave momento político que vivemos, seja porque todos precisamos participar da política; afinal ela rege as nossas vidas. 

No início da democracia, em Atenas, Grécia (V a.C.), os democratas Protágoras, Aspásia e outros, chamavam de “idiotas” (Ιδιώτες) as pessoas que diziam não ter tempo para participar da vida da democracia, pois estavam muito ocupadas com os seus afazeres e os seus negócios. 

Não se trata de uma questão de esquerda ou direita. Não podemos ser omissos diante da grave crise contra a democracia e contra a saúde pública praticadas pelo governo Bolsonaro. O momento é de união. 

Por isso, é alentador ver jovens protagonistas discutindo a vida democrática e a política, num momento em que muitos representantes das classes políticas, ou estão acovardados, ou estão pensando nos seus interesses.

Que venham Anitta, Felipe Neto e inspirem tantos outros a somarem esforços e mobilizações em defesa da democracia, da liberdade e das grandes causas nacionais.

As forças democráticas precisam se impor

Aqueles, com eu, que nasceram na primeira metade da década de 60, cresceram e conviveram com o Regime Militar. 

Quem não era alienado ou apoiador do regime sabe bem o pesadelo que foi. As notícias que vinham dos porões de tortura; os desaparecimentos; as eleições indiretas; a total falta de liberdade. A palavra “subversivo” era muito comum entre nós para designar um gesto ou expressão que pudesse nos colocar em risco. 

Somos de uma época que não tínhamos partidos políticos, então proibidos. Eram apenas dois partidos MDB e Arena. Não tínhamos partidos, mas tínhamos esperanças. Aprendemos a alimentar um sonho de Brasil, de um país para todos; moderno, que priorizasse a educação e a saúde; que tivesse com menos desigualdade social; que preservasse a Amazônia e respeitasse os povos indígenas.

Aos poucos, num longo processo, sopraram os ventos da liberdade. Canções como “O Bêbado e o Equilibrista” de Aldir Blanc, que acaba de nos deixar, nos embalavam nos sonhos de esperança. Fomos para as ruas pedir diretas. A democracia e a liberdade chegaram depois de uma longa luta do povo brasileiro. 

A nossa democracia sobreviveu. O processo democrático se fortaleceu com eleições regulares. Tivemos decepções com sucessivos governos, houve dois impeachments, mas história recente traz um saldo positivo do fortalecimento das instituições como Forças Armadas, Legislativo, Judiciário, Ministério Público, Polícias. Enfim todos os poderes e instituições ficaram fortalecidos, funcionando sob a égide de uma Constituição legítima e democrática.

Até que chegou Bolsonaro. Ele foi eleito depois de uma tempestade perfeita, com inúmeros fatores que o levaram ao poder, como lavajatismo, decepção com o PT, movimentos religiosos, corrupção, entre outos. Chegou atacando diariamente o nosso bem mais precioso e duramente conquistado: a nossa democracia.

Mais que atacar a democracia, com Bolsonaro perdemos muito em termos de institucionalidade, de degradação do debate público, de organização social, de redes comunitárias. Com ele estamos perdendo a nossa tão duramente conquistada democracia.

Mais do que atentar contra as instituições democráticas, de uns tempos para cá Bolsonaro começou a participar diretamente de atos golpistas, como no último dia 03 de maio, criando entre todos o pesadelo de um golpe militar. Bolsonaro não tem limites. Atenta contra a democracia e boicota o isolamento social.  Diz “a Constituição sou Eu”, “quem manda sou Eu” e gosta de perguntar “e daí?”. 

Mesmo com todas as barbaridades que têm feito, Bolsonaro segue com os aplausos de uma minoria. Alguns são dominados pelo fanatismo e são agressivos com jornalistas e profissionais da saúde.

Bolsonaro quer mudar o regime e governar sem as instituições democráticas. Avança e recua. Testa limites. As Forças Armadas e o Congresso Nacional estão fazendo de conta que nada está acontecendo. Até quando as instituições democráticas vão deixá-lo avançar?

Está na hora das Forças Armadas desembarcarem desse governo pena de correr o risco de uma imensa e histórica desmoralização. 

As forças democráticas precisam se impor. Não podemos, depois de tão pouco tempo do fim do triste período da ditadura, retroceder no processo civilizatório. Isso não vai acontecer. A nossa democracia vai resistir. Depois desse pesadelo todo, quando Bolsonaro se for de vez, diremos à toda voz: “Bolsonaro nunca mais”.

Bolsonaro em ato antidemocrático no dia 26 de abril.
Bolsonaro participando de ato antidemocrático no último dia 03/05.

Tempo do fazer e do ter x tempo do ser e do estar.

Antes da pandemia estávamos acostumados ao tempo do “fazer” e do “ter”. Tudo mudou durante o isolamento. Desacelerados, o tempo já não é mais medido como antes. 

Que dia é hoje? Que horas são? As horas são confusas e os dias se atropelam entre ontem, hoje e amanhã. A noção do tempo se mistura. 

Perdemos as rotinas daquelas atividades que separavam os fins de semana dos dias normais. Às vezes fica a impressão que não há fins de semana ou dias úteis.

A alteração da rotina tem gerado mudanças nas nossas vidas. Desacostumados com o tempo disponível, ficamos desorientados e nos perdemos; às vezes até levamos mais tempo para concluir as nossas tarefas. 

Tenho aproveitado toda essa situação para refletir sobre o real valor do tempo na minha vida. Paro, penso e faço perguntas a mim mesmo: por que não temos tempo para fazer as coisas que gostamos? O que tem acontecido com o tempo? Quais são e quais serão as prioridades na minha vida? O que me falta? 

Depois que tudo passar, como conduzirei melhor o tempo? Quais leituras vou priorizar? Quais músicas quero ouvir? Vou meditar mais? Vou ter mais paciência com a espera? E com as pessoas? Com quem quero me relacionar mais e melhor? Como vou sentir melhor o tempo?

Eu sei que estamos acostumados ao tempo do “fazer” e do “ter”. É difícil mudar hábitos de vida. Mas a pandemia está nos trazendo uma oportunidade única e preciosa de priorizarmos as nossas escolhas. É um momento de aprendizados e, quem sabe, de reintegrarmos às nossas vidas o tempo do “ser” e do “estar”. Ainda há tempo!

Renascer e renascer até a morte.

Os velhinhos fazem parte das emocionantes imagens daqueles que se recuperam da Covid-19. Aplaudidos por médicos, enfermeiros e cuidadores, a cada dia eles saem dos hospitais, de volta ao show da vida.

Numa rápida busca no Google dá para ver vários velhinhos centenários que sobreviveram, destacando-se o mais idoso William Lapschier, de 104 anos, do Oregon, EUA.

Nesta semana foi a vez de Julia Dewilde, de 100 anos, que teve alta na Bélgica, e da brasileira Dona Nair Torres Santos.

Entre os que se recuperam estão os centenários, nonagenários, octogenários e idosos em geral. Voltarão para a vida normal e para a convivência familiar. E alguém duvida que muitos continuarão na vida social, com os seus trabalhos e pesquisas?

Como já citei em outro post, dos 15 vencedores do Prêmio Nobel de 2019, 9 eram idosos: três sexagenários, quatro septuagenários, um octogenário e o recordista John Goodenough, Prêmio de Física, com os seus incríveis 97 anos. 

Não sabemos se chegaremos lá, mas a força e o entusiamo de muitos idosos são inspiradores.

O pensador Edgar Morin com os seus 99 anos continua dando palestras e anunciou nesta semana a publicação de um livro de mais de 700 páginas. Morin é um farol neste mundo tão desafiador. 

É também o mestre Morin quem nos ensina que a vida é feita de constantes recomeços e renascimentos. Uma de suas máximas preferidas, citada no livro “Meu Caminho”, é plena de significados: é preciso “renascer e renascer até a morte”.

Julia Dewilde, de 100 anos, que teve alta na Bélgica.
A brasileira Nair Torres Santos.

E daí?

No mesmo dia em que a pandemia batia recorde no Brasil e multidões se aglomeravam nas longas filas da Caixa para escapar da fome, Bolsonaro fazia tiro ao alvo. Ao ser indagado sobre o recorde do número de mortos, ele perguntou: “E daí?”.

E daí que Bolsonaro não está preocupado com aqueles que choram os mortos. Não tem empatia e nem compaixão. Não consegue palavras espontâneas de conforto às famílias das vítimas. 

O mal já está tão impregnado nas suas falas e condutas que virou rotina. Poses de arminhas, elogios a torturadores, deboches sobre a pandemia, comentários atrozes, ataques contra o isolamento social, nada mais lhe parece ser o mal, que já se tornou banal. É o mal como causa do mal, de que nos fala a filósofa Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém”, livro no qual, ao analisar o comportamento insensível do carrasco nazista, ela desenvolveu o conceito de “banalidade do mal”, a face superficial da condição humana. 

E daí? E daí que é preciso intensificar o movimento pelo impeachment, ainda que no meio da pandemia. É preciso parar o inconsequente, o insensível, e o autoritário Bolsonaro. A continuidade de um presidente assim está sendo e será um enorme perigo para o país.

Ajudar nas tarefas da cozinha

Combinei com minha esposa Dani que vou cozinhar mais em casa. Sei das minhas limitações, mas procuro ser colaborativo e senti a necessidade de ajudar mais diretamente na cozinha. Além disso, cozinhar é uma boa terapia em épocas de nervos à flor da pele.

Desde crianças eu e a minha irmã trabalhávamos fora e dávamos os nossos pulos para ter comida em casa. Sempre ajudei como pude. 

Ao longo da vida, morei muito tempo sozinho e fazia a minha própria comida. 

Mas confesso que cozinhar definitivamente é uma arte e nunca foi o meu forte. 

Certa vez deixei o feijão cozinhando na panela de pressão e fui para a escola. Eu tinha uns 13 anos. Ao final do dia, quando voltei, toda a vizinhança estava impressionada e falando alto sobre um cheiro de amendoim torrado que invadia toda a rua. Cheguei em casa e a panela de pressão estava uma imensa bola incandescente, toda queimada, depois de horas com o fogo ligado.

Por várias vezes deixava a água fervendo, saía para a rua, e quando voltava o fundo da caneca estava derretido, com um imenso furo embaixo.

Minha história de cozinheiro é cheia de contratempos, dissabores e muitas histórias. 

Atualmente ficou mais fácil porque a internet ajuda muito, com as receitas e os tutoriais. 

De qualquer forma, decidido a cumprir bem a minha promessa eu tirei um velho e manchado livro da estante, que já me socorreu bastante nos velhos tempos. Chama-se “Guia para a sobrevivência do homem na cozinha”. Ensina até a fritar ovos. Agora vai!😁😉

Tudo já foi dito, mas é preciso dizer de novo

Dia da Terra. Foi o cientista inglês James Lovelock que elaborou a hipótese Gaia segundo a qual o planeta Terra é um imenso organismo vivo, onde todos os elementos interagem-se uns com os outros. Não vivo como nós somos, seres vivos, mas como um sistema complexo, adaptativo e auto-organizado. O nome Gaia é em homenagem à deusa grega, mãe da Terra e dos seres vivos.

Tudo está ligado a tudo, desde um microcosmo quântico até a imensidão do espaço. O homem sempre entendeu que é dono da natureza e que pode dominá-la, mas não é assim. A natureza se vinga de nós, da nossa ciência, da nossa tecnologia e do nosso poder.

Toda vez que há uma catástrofe, voltamos, o nosso olhar para a natureza. Sabemos que nossa forma de explorar a Terra como planeta vivo é nociva. A pandemia do coronavírus é um desses momentos que deveriam trazer muitas lições. 

Não somos apartados da natureza. Ao ser explorada mais do que ela pode dar, a Terra perde o equilíbrio dinâmico e dá sinais de esgotamento, retaliando através de respostas fortes, como nos mostram o aquecimento global; as grandes catástrofes naturais, cada vez mais frequentes, e as pandemias.

Faz tempo que a Terra tem dado esses sinais. O homem conhece a fragilidade planetária, mas mesmo assim continua destruindo sem limites. 

A Amazônia brasileira, por exemplo, nunca foi tão destruída, depois que a extrema-direita chegou ao poder, com os desmontes dos órgãos de fiscalização, num governo que cala e consente com as ações predatórias.

Já deveríamos ter aprendido as lições com as nossas dores e sofrimentos. Infelizmente não aprendemos. Como disse o filósofo francês André Guide, “tudo já foi dito, mas, como ninguém ouve, é preciso dizer de novo”.